A BURGUESIA FOLCLÓRICA E O FORA TEMER

Há algum tempo nos vemos em um cenário político desolador, polarizado, apático, que beira o apolítico.Os debates politicos giram em torno da institucionalidade como única forma de ação política. De um espectro amplo, estesdebates se polarizam, ou é esquerda ou é de direita. Em um sentido estrito, a esquerda partidária parece não haver alternativa a não ser o Lulismo, que irá salvar o país de todo o mal trazido pela direita fascista que fora criada pela própria esquerda. A romantização da narrativa do Golpe, quase nos faz esquecer que quem votou na Dilma também votou no Temer. Nos faz esquecer que o PT e Lula para estar no poder um dia tiveram que fazer acordos com a Globo (que agora é golpista), com o Itaú, Friboi e tantas outras. O Lula que tirou milhões de brasileiros da miséria enriqueceu como nunca a burguesia nacional. Houve aumento brutaldas vagas nas universidades, sobretudo para as minorias sociais, no entanto as universidades vem sofrendo, desde então, um processo de sucateamento quase irreparável. Houve uma queda imensa nas taxas de desemprego, no entanto a maior parte destes empregos gerados foram precarizados, como o setor de Telemarketing. O governo de Dilma colocou a força de segurança nacional na Maré, e hoje o PT reclama da intervenção militar no Rio, quando ele foi o primeiro a inventar a roda. Mas hoje não se pode criticar o PT, nem do PSOL, nem dos partidos eleitoreiros da esquerda decadente brasileira porque você é um fascista ou está fazendo coro com a direita. Pois a única solução para o Brasil é o Lula. O Intocável, o guerreiro, o perseguido pela mídia, pela direita, pelo judiciário. A condução destes debates nos faz esquecer também que política não é religião, o partido e o líder não podem estar acima dos ideais, do próprio movimento e do povo. Pois aonde não há autocrítica há estagnação e decadência. Não se trata aqui de rever os erros e acertos do governo PT, mas sim de reconhecer que projeto político do PT chegou a um esgotamento após 14 anos de governo.A estratégia eleitoral burguesa da esquerda reformista tem seu limite. Em seu seio não há espaço para rupturas e transformações profundas na sociedade. O maior exemplo disto, historicamente, é o Estado de Bem-Estar Social. Este modelo que partiu da concessão dos dois lados, capitalistas e socialistas. Os capitalistas passaram a reverter parte de seus lucros para demandas sociais, como educação, saúde, segurança, moradia e os socialistas pararam de lutar por mudanças estruturais profundas, por revolução, pelo fim da exploração etc. O Estado de Bem-Estar Social foi aplicado em diversos países, sobretudo da Europa. No entanto, foi um modelo que se esgotou e teve seu fim.

Neste momento, há um monopólio do pensamento acadêmico que ficou estagnado no Lulismo. Isto não é a toa, o PT foi um partido fundado, em parte, pelos maiores intelectuais do país. Na militância, na última década houve surgimento do PSOL e do PSTU, após o escândalo do mensalão. O PC do B se manteve fiel ao lado do PT, o PCB foi para o campo oposto, o da esquerda mais “combativa” juntamente com PSOL e PSTU.

Durante décadas estes partidos romperam com PT, na conjuntura “pós-golpe”, temos assistido gradativamente uma aproximação do PSOL ao PT.

Mas o que é o PSOL? Um partido que nasce do PT, que nasce nas universidades, na academia, na elite. Um partido que nunca conseguiu dialogar com as massas, como seu predecessor. O PSOL é um partido que, como dito anteriormente se funda da ruptura com o PT, e durante a última década trouxe pautas como descriminalização da maconha, desmilitarização da polícia, bem como o foco em frentes e setoriais feministas e Lgbts. Desta forma, o partido conquistou muitos seguidores, mais combativos e que discordavam do governo do PT que cada vez mais se afastava da base, dos movimentos sociais e das camadas mais populares e oprimidas. No entanto, o PSOL é um partido como outro qualquer e quer o poder a qualquer custo. E ultimamente o custo mais alto a ser pago por este partido é o aparelhamento das opressões e o discurso da representatividade. Revolução? Luta de Classes? Ruptura com o Estado Burguês? Deixa isso pra lá né gente! Vamos é nos eleger porque isso é que dá dinheiro e poder. Mas o que seria o aparelhamento das opressões? O uso indiscriminado das opressões reais para ganhar votos. Não é de hoje que o partido apresenta candidatos com alcunhas, mulher, negra(o), indígena, gay, lésbica, evangélico(a), transsexual, periférico etc. Qual o problema deste uso? Mas nós precisamos das minorias para representar as mesmas! Representatividade importa! Bem, todos nós sabemos que as opressões existem, todas estas são derivadas de um sistema patriarcal, que é machista, homofóbico e racista. No século passado, com a hegemonia da abordagem marxista na academia e na política dos partidos da esquerda tradicional brasileira, estas opressões de fato foram invisibilizadas. Em outras palavras, falava-se em luta de classes, em superação do sistema capitalista e não se falava da opressão racial, de gênero e de sexualidade. No final da década de 1960, tendo como marco, maio de 1968 tomou-senovos rumos para o pensamento político e social do Ocidente. As lutas identitárias, os discursos das minorias sociais começaram a ganhar relevo, pensadores como Foucault, Derrida e Deleuze rejeitaram o marxismo como forma hegemônica de pensamento social. No entanto, sobretudo após a Guerra Fria com fim da União Soviética e a decadência do marxismo a ideia de Revolução ruiu. Os partidos abandonaram a ideia de Revolução na prática, e o que temos hoje são partidos de esquerda que lutam por ideais extremamente burgueses como a representatividade e direitos humanos, por exemplo. Mas precisamos ir mais longe, e pensar como o discurso da representatividade tem sido utilizado, como se fosse a salvação de todas as minorias oprimidas, Ou seja, coloque mulheres, negra(o)s, transexuais e homossexuais no Poder que será o fim das opressões, porque estas pessoas lutaram pelo direito daqueles que fazem parte desta minoria. Infelizmente, como dissemos a representatividade e um princípio burguês, o sistema eleitoral também, o Estado também. Então não adianta dar representatividade para algumas minorias em um sistema burguês que se apropria deste discurso, coloca alguns no Poder, e a maioria continua sendo oprimida e explorada, porque isso é o sistema representativo burguês. No entanto, a luta pela representatividade é posta em primeiro plano, se utiliza da opressão para ganhar votos e estar no Poder. Enquanto naturalizarmos o discurso de opressões como forma de ganhar poder e de status social esvaziaremos o verdadeiro sentido de uma transformação social maior na qual consigamos de fato extinguir as opressões, um dia…. Muito diferente de se apropriar de pautas e de opressões de milhões em favor de um representante daquela minoria que ganhará fama, poder e estará a serviço do mesmo sistema burguês que oprime a massa dos oprimidos. Ao que parece estagnamos no debate de quem é o mais oprimido e quem por sua vez tem que estar no Poder e ter o “o lugar de fala”.[1] Com a disseminação destes debates pela internet, temos uma amplitude muito maior que transcende classe, gênero e raça, no entanto temos uma superficialidade do debate por conta da própria forma de difusão que temos na internet, rápida e superficial. Este tipo de debate definitivamente não nos levará a lugar algum, obviamente que as opressões têm de ser reconhecidas e combatidas, mas não utilizadas como um produto para autopromoção de indivíduos e de partidos. Outro agravante é que se criam tipos ideais e generalizantes, como por exemplo a/o transexual é mais oprimido que a mulher negra, ou a mulher negra é mais oprimida que a mulher branca, o homem negro é mais oprimido que a mulher branca e assim por diante. Neste tipo de comparação se esquece de falar de classe, de história e sobretudo de rever subjetividades que cabem somente a história de cada uma derivada de sua opressão. Em outras palavras, não é possível fazer este tipo de generalização sem considerar classe, história e a subjetividade decorrente da opressão. Pois um homem negro favelado de fato é mais oprimido que uma mulher branca rica, ou seja, ele tem mais dificuldades de conseguir e alcançar certas coisas. No entanto, se for uma mulher branca pobre e um homem negro rico? Mas e se a mulher for lésbica e o negro for hétero? Mas e se a/o trans for rico e a mulher for pobre e tiver sofrido violência sexual (decorrente do fato de ser mulher)? A transexualidade não é uma opressão histórica, como se configura a opressão relativa a gênero e raça. Ah, mas aí é menos ou mais oprimido então? Entendam como não é tão simples quanto parece apenas dizer quem é o mais ou menos oprimido e na verdade deste debate não se chega a lugar algum. Ou na verdade sim, em quem por ser o mais oprimido deve tomar o poder e ser eleito por isso, mas aí caímos na contradição de estarmos lutando por uma representatividade burguesa que não libertará todos os oprimidos. Outro ponto é a fragilidade desta concepção, é que esta acaba por ser aparelhada também pelos setores mais conservadores e liberais do país. O que é o fenômeno Sara Winter, a ex-feminista que critica o feminismo ou ainda Fernando Holiday, o vereador de São Paulo, coordenador do MBL que é negro, gay e periférico e é contra cotas e diz que racismo é vitimismo. É parece que a esquerda criou um próprio monstro com o aparelhamento das opressões.

Ao falar das estratégias políticas de massificação e propagação de certos discursos que favorecem os partidos da esquerda eleitoreira, é preciso entender o que fora o “movimento Fora Temer”.

Quem gritou Fora Temer não foi o povo, não foram os trabalhadores foi uma burguesia unversitária apolítica, que se politizou tardiamente e superficialmente, e acha que ser politizado, que ser de esquerda é moda. Então coloca como nome Fora Temer no Starbucks, uma loja de café que só burgueses frequentam, e achavam o máximo fazer o trabalhador gritar Fora Temer, sendo que este não fazia isto pela sua vontade e sim por ser obrigado por um burguês que achou bonito subjugar um trabalhador. O Fora Temer se tornou a sensação de uma classe privilegiada metida a revolucionária. Houve de tudo, carregou-se a tocha olímpica com Fora Temer escrito na bunda (como se fosse muito revolucionário), marchinhas com o grito Fora Temer nos blocos de carnavais e shows de Caetano e Cia, dentre outros ídolos da burguesia folclórica. Aquela que não tem pais trabalhadores, nunca trabalhou, sempre morou e estudou nos lugares mais privilegiados de suas cidades e se vêem no direito de falar pelo povo, do qual nunca fizeram parte, do qual nunca dialogaram. Eu gostaria de perguntar aos “Fora Temer” da UFRJ, da Praia Vermelha, do Leblon, de Ipanema se vocês já pegaram um trem na vida de vocês, se conhecem a Baixada, se conhecem algo fora do circuito Zona Sul, Centro, Lapa, Bar da Cachaça. A verdade é que o Fora Temer virou moda entre uma pseudo esquerda folclórica apolítica por pura preguiça, não por falta de oportunidade. Se querem gritar Fora Temer com tanta convicção, porque para além disso não questionam os partidos de esquerda que vocês idolatram, quanto ao seu programa, aos seus candidatos, aos altíssimos salários pagos a estes quando eleitos. Me intriga porque não se questiona que um vereador ganha cerca de R$50,000 fora os benefícios que quase duplicariam este valor, um deputado ganha cerca de R$100.000,00. E quanto ganha um professor, um gari, um motorista de ônibus. Porque a esquerda partidária que diz lutar pelos trabalhadores não coloca os salários de seus representantes em pauta? Por que ao invés de gritarem Fora Temer feito papagaios amestrados não largam o Bar da cachaça e o bar das Putas e participam de alguma organização política, ainda que seja eleitoreira e festiva. Por que são tão seletivos quanto a sua indignação? Nunca clamaram pela liberdade de Rafael Braga e quando Lula é preso, há uma comoção, sendo que este senhor tem diversos privilégios por ser um líder histórico e ex-presidente do Brasil, diferente de um negro, catador de lata que nunca teve oportunidade de se inserir na política, como representante, muito menos como um líder. Quem gritou Fora Temer definitivamente nunca gritou Liberdade para Rafael Braga. O povo nunca gritou Fora Temer não por apoiar o dito “Golpe” mas por que nossas pautas são reais, são do dia-a-dia, das opressões e explorações diárias, das mortes diárias dos negros nas favelas, da ineficiência dos sistema de saúde e de educação, que pasmem vocês! Nós não temos dinheiro pra pagar escola particular e plano de saúde! Dependemos de transporte público diariamente, desde que nos entendemos por gente, diferente de vocês que sempre andaram de carro, tiraram a carteira de motorista aos 18 anos e ganharam um carro porque passaram no vestibular. Por isso a juventude periférica e trabalhadora nunca gritou Fora Temer, porque sabemos que independente de quem esteja no poder, nós seremos explorados, em um grau maior ou menor. Quem gritou Fora Temer estava dentro da Universidade, esse grito nunca ecoou nas favelas e nas periferias.

 

[1]“Do ponto de vista da legitimidade do discurso e da fala, quem sofre na própria pele pode falar por si. A reivindicação do sujeito historicamente discriminado pelos dispositivos de fala passa por aí. O que se tem visto amplamente nas discussões das redes sociais é a banalização das expressões. “As pessoas tendem a crer que uma pessoa branca não pode falar sobre a questão racial negra por não ser negra. Ou mesmo pessoas brancas dizem que este debate [sobre questão negra] não é seu lugar de fala. Isso é um equívoco. O lugar de fala pressupõe uma postura ética. Portanto, você sendo homem ou hetero e não-negro, você pode, do seu lugar de fala, falar sobre negros, mulheres, população trans, ou seja, todas as outras minorias”

 

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